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terça-feira, 12 de abril de 2011

Brasil ainda não tem solução para o lixo radioativo

Embora o País já disponha de tecnologia para construir um depósito definitivo para os resíduos, todo o material gerado no complexo nuclear desde o início das operações das usinas, em 1986, está armazenado de forma temporária.

Passados 26 anos que o Brasil produz energia nuclear, a solução definitiva sobre o que fazer com o lixo radioativo gerado pelas usinas de Angra 1 e 2 ainda esbarra em decisões políticas para se tornar realidade. Embora o País já disponha de tecnologia para construir um depósito definitivo para os resíduos, todo o material gerado no complexo nuclear desde o início das operações das usinas, em 1986, está armazenado de forma temporária.

Com o início das operações de Angra 3 previsto para dezembro de 2015 e a capacidade dos depósitos de Angra 1 e 2 perto do limite, o governo brasileiro terá que alcançar uma solução nos próximos anos. O projeto para a construção de um depósito final também esbarra em uma questão polêmica: a escolha do local que receberá os materiais radioativos, um vizinho considerado indesejado.

Desde que Angra 1 e 2 entraram em operação, já existem 2.777 m³ de lixo radioativo (sem considerar as varetas de urânio), quantidade suficiente para encher pouco mais de uma piscina olímpica. Esses resíduos estão guardados, de forma provisória, em um depósito que fica próximo ao complexo nuclear.

Entre os resíduos considerados perigosos, estão peças, ferramentas e roupas que tiveram contato com a radiação, considerados de média e de baixa radioatividade. O lixo radioativo pode emitir radiação por milhares de anos e, se guardado de forma irregular, pode causar um desastre como o que aconteceu em Goiânia, com o Césio-137, que provocou a morte de 60 pessoas.

À época, em 1987, catadores de lixo desmontaram equipamentos que continham material radioativo e que haviam sido abandonados por uma clínica de saúde desativada. Segundo a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia responsável por licenciar e fiscalizar as operações das usinas, esse material está armazenado de forma segura no único depósito definitivo para lixo radioativo que existe no Brasil, localizado na cidade Abadia de Goiás, na região metropolitana de Goiânia.

Tambores concretados em piscina

De acordo com o diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da CNEN, Laércio Antônio Vinhas, a elaboração do projeto que dará destino final ao lixo radioativo é “uma das prioridades da comissão”.

- A tecnologia nós já temos. O projeto de Goiânia é mais simples, mas a concepção é a mesma. Ele explica que entre o material radioativo e o ambiente deve haver até oito barreiras físicas. O lixo será armazenado em tambores, que são concretados e vão para uma espécie de piscina vazia que é completada com mais concreto. Depois disso, esse tanque será fechado com uma laje e, em cima de tudo isso, ainda haverá mais uma cobertura de concreto e de terra.

Para Vinhas, uma das alternativas para resolver o impasse sobre o local onde esse depósito deve ser construído é a criação de uma espécie de “royalty inverso”, sistema em que os municípios receberiam dinheiro não pela extração de um recurso mineral, mas para guardar o lixo radioativo.

- Não é um problema técnico, mas sim político. Na Coreia, por exemplo, o governo abre uma concorrência invertida. As cidades disputam para receber o depósito por conta das compensações financeiras.

Outro tipo de resíduo produzido nas usinas é o combustível que fica no interior das varetas de urânio. Quando chega ao fim, elas são armazenadas em um tanque coberto com água (a água funciona como barreira que evita emissão de radiação).

Segundo a Eletronuclear, as piscinas têm vida útil até 2020. Depois disso, será preciso dar um novo fim para esse combustível. Em outros países que usam energia nuclear, o urânio é reprocessado e reutilizado, como explica o coordenador de Comunicação e Segurança da Eletronuclear, José Manuel Diaz Francisco.

- O urânio pode ser reprocessado para um novo ciclo de uso, mas o Brasil ainda não reprocessa. Essa é uma decisão que cabe ao governo brasileiro.

Passivo ambiental

O professor de engenharia nuclear da Coppe - Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ e PhD em energia nuclear no Massachusetts Institute of Technology, Antonio Carlos Marques Alvim, diz que já existe tecnologia para armazenar com segurança material radioativo sem uso.

- Uma das críticas em relação à energia nuclear era sobre o destino dos rejeitos [resíduos], mas hoje já há estudos para melhorar os reservatórios e para a transmutação dos rejeitos, ou seja, para diminuir seu tempo de vida e causar menos impacto para o ambiente.

Sem entrar na discussão sobre como garantir a segurança no armazenamento desses materiais, o coordenador da campanha de energias renováveis da ONG Greenpeace, Ricardo Baitelo, chama a atenção para uma questão de difícil solução e que ainda representa um enorme desafio não apenas para o Brasil, mas para todos os países que usam energia nuclear.

Para ele, o mais grave problema envolvendo a questão são "os passivos nucleares que serão passados de geração para geração, a perder de vista".

- Esse combustível terá de ser estocado por muitos anos. A gente não está falando só de centenas de anos, mas de milhares de anos. Como é que se sabe se existe uma estrutura capaz de manter isso seguro e imune à qualquer acidente? Não só a terremotos como o do Japão, mas à mudança na elevação do nível do mar, considerando as mudanças climáticas que ocorrerão ao longo dos anos?

Japão aumenta para nível máximo o acidente nuclear de Fukushima

A Comissão de Segurança Nuclear do país sobe de 5 para 7 o desastre. Eles aumentaram, depois de analisar, os efeitos do vazamento radioativo sobre a saúde dos moradores da região e o meio ambiente. Um mês depois das tragédias do terremoto e do tsunami que devastaram o Japão, o governo do país vai aumentar para o nível máximo a gravidade do acidente nuclear de Fukushima. O desastre passa agora de 5 para 7 na escala internacional que mede os acidentes atômicos. Esse é o mesmo nível do desastre nuclear de Chernobyl, até agora o pior já registrado. A decisão foi tomada pela Comissão de Segurança Nuclear do Japão, depois de analisar os efeitos do vazamento radioativo sobre a saúde dos moradores da região e o meio ambiente. O aumento da gravidade do acidente de Fukushima vai ser anunciado pelas autoridades japonesas nesta terça-feira (12).

terça-feira, 5 de abril de 2011

Japão vai jogar cerca de 11,5 mil toneladas de água radioativa no mar

Governo afirma que nível de radioatividade é baixo.

Número de mortos por tsunami passa dos 21 mil, segundo a polícia.

A Tokyo Electric Power (Tepco), empresa que administra a usina nuclear de Fukushima, afirmou nesta segunda-feira (4) que vai despejar no Oceano Pacífico cerca de 11,5 mil toneladas de água radioativa acumuladas nas instalações da central.

De acordo com a empresa, os índices de radiação na água que será jogada ao mar são aproximadamente 100 vezes acima do normal. A Tepco afirma que o nível de radiação é considerado 'relativamente baixo'.

Um funcionário do governo japonês disse que não há alternativa. "Não temos opção senão despejar essa água contaminada ao mar como medida de segurança", disse o porta-voz do governo, Yukio Edano.

Também nesta segunda-feira (4) a Tepco informou que usou líquido com corante em um túnel próximo ao reator 2 da central para tentar determinar a rota pela qual a água radioativa vaza para o mar.

Segundo informações da televisão "NHK", os funcionários verteram o líquido de cor branca em um túnel que conduz à fossa onde no sábado (2) foi detectada uma rachadura de cerca de 20 centímetros, que permite que água com uma elevada radioatividade vaze para o mar.

A empresa tentou deter o vazamento selando a rachadura com concreto e injetando polímero em pó para absorver a água, mas nenhuma nenhuma dessas duas medidas obteve sucesso. O objetivo do corante é poder seguir a rota exata pela qual a água contaminada chega ao mar.

A Tepco estuda ainda tapar a rachadura com produtos químicos ou instalar uma barreira no litoral para conter a água radioativa. De forma paralela, os técnicos continuam os esforços para drenar a água radioativa que inunda os porões dos prédios de turbinas das unidades 1, 2 e 3, e dificulta seriamente os trabalhos para esfriar os reatores da central de Fukushima.

Número de mortos

O Japão foi atingido no dia 11 de março por um terremoto de magnitude 9, seguido por tsunami, na região nordeste do país. Segundo último balanço divulgado pela polícia nesta segunda-feira (4), o número de mortos aumentou para 12.157. Os desaparecidos totalizam 15.496 pessoas.

Além disso, quase 160 mil pessoas que moravam nas províncias de Miyagi, Iwate e Fukushima, as mais devastadas pela catástrofe, continuam abrigadas nos 2.100 refúgios temporários.

(*com informações da Reuters e EFE)

(Fonte:G1-04/03/11)


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Angra 3 ganha licença sem que Eletronuclear mantenha áreas de conservação ambiental

Carla Rocha


Uma alteração — ainda mal explicada — tirou do texto final da licença de instalação da usina nuclear de Angra 3, concedida no final de 2009, o item que obriga a Eletronuclear a assumir a manutenção e o custeio de duas importantes unidades de conservação na região de Angra dos Reis, o Parque Nacional da Serra da Bocaina e a Estação Ecológica (Esec) de Tamoios. A exigência, que constava da licença prévia, de 2008, simplesmente desapareceu. Até hoje, o convênio em que a Eletronuclear se compromete a repassar R$ 13 milhões em cinco anos para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que administra as unidades, não foi assinado. Para especialistas em licenciamento ambiental, a situação é atípica e irregular. Reportagem do GLOBO, há uma semana, mostrou que a Eletronuclear contratará uma auditoria para reavaliar a segurança das encostas no entorno das usinas de Angra 1 e Angra 2.


Com grande área de Mata Atlântica nativa, o Parque Nacional da Serra da Bocaina, da década de 70, e a Esec de Tamoios, de 90, foram criados como uma forma de proteção ao meio ambiente justamente em decorrência da instalação das usinas nucleares na região. A inclusão das unidades no rol das condições para a instalação de Angra 3 foi considerada uma vitória do ministro do Meio Ambiente na época, Carlos Minc, atual secretário de Ambiente do estado.


Minc também incluiu na licença prévia outras exigências que chegaram a gerar polêmica: a Eletronuclear deveria se comprometer com a construção de um repositório — destino final para o lixo atômico, que está até hoje em depósitos iniciais no terreno das usinas —, contratar um monitoramento ambiental de um órgão externo e destinar recursos para as obras da estrada Paraty-Cunha. Esta última é uma importante rota de fuga em caso de acidente, que ainda não saiu do papel por não terem ainda sido cumpridas exigências feitas pelo Ibama.


Minc disse ontem ter sido surpreendido pela notícia de que a exigência relativa às unidades de conservação não consta mais da licença de instalação. Ele revelou que, quando ainda estava à frente do Ministério do Meio Ambiente, recebera a denúncia de que o item havia sido subtraído do documento e exigiu do então presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, que fosse feita uma retificação.


sexta-feira, 18 de março de 2011

Acidente nuclear no Japão faz os EUA tremerem

Por Andrea Lunt, da IPS

Nova York, Estados Unidos, 17/3/2011 – Enquanto o Japão segue lutando contra uma ameaça nuclear, legisladores, ativistas e representantes da indústria atômica dos Estados Unidos debatem sobre o futuro de seu próprio país. A polêmica está centrada na capacidade de Washington para enfrentar uma eventual crise semelhante à vivida pela cidade japonesa de Fukushima depois do tsunami do dia 11.

Existem 104 reatores nucleares nos Estados Unidos, 35 utilizando sistemas similares aos afetados no Japão. Legisladores como Edward Markey, do governante Partido Democrata, hoje questionam sua segurança. Em uma carta à Comissão Reguladora Nuclear (NRC) do dia 11, Edward expressa preocupação pela capacidade de resistência das centrais nucleares do país, várias delas sobre falhas geológicas, ou próximas.

Especial preocupação, destacou, é o projeto de reator fabricado pela Westinghouse e atualmente em exame pela NRC, que falhou nas provas de impactos sísmicos. Segundo Edward, um alto engenheiro da NRC assegurou que a estrutura de proteção interna do reator AP1000 é tão frágil “que poderia se destroçar como um copo de vidro” diante da pressão gerada por um terremoto.

O congressista também expressou preocupação pela capacidade de Washington para responder a um desastre, depois de recentes revelações de que a Agência de Proteção Ambiental, a NRC e a Agência Federal de Administração de Emergências não conseguiram chegar a um acordo sobre quem lideraria os esforços caso ocorra algo similar ao registrado no Japão. Edward solicitou completa investigação sobre as regulamentações de segurança à luz dos acontecimentos no complexo japonês de Fukushima, onde se teme um grande vazamento de radioatividade.

Foi criada uma zona de exclusão de 20 quilômetros em torno do complexo, e a imprensa local informou que aumentavam os níveis de radiação em Ibaraki, localizada entre Fukushima e Tóquio. O governo japonês minimizou a ameaça, apesar de solicitar urgente ajuda da NRC e da Agência Internacional de Energia Atômica.

Por sua vez, a administração de Barack Obama insiste que as centrais atômicas dos Estados Unidos são seguras e rejeitou os pedidos de uma moratória nos planos de desenvolvimento nuclear. O independente Instituto de Energia Nuclear também tentou conter o medo. Em uma declaração em seu site disse que é muito “prematuro” traçar paralelos entre os programas nucleares de Japão e Estados Unidos.

“O Japão enfrenta o que literalmente pode ser considerado o pior caso. Mesmo assim, o mais danificado de seus 54 reatores não liberou radiação em níveis que possam afetar a população”, disse o grupo, destacando os avanços obtidos pelo setor atômico nos últimos anos. “Enquanto não entendermos claramente o que ocorreu nas centrais nucleares de Fukushima e suas consequências, fica difícil especular sobre o impacto de longo prazo no programa de energia nuclear dos Estados Unidos”, afirmou.

No entanto, Linda Gunter, do grupo Beyond Nuclear, pediu maior transparência do governo do Japão e das autoridades do setor atômico. Linda disse à IPS que o derretimento parcial dos reatores de Fukushima deveria servir de alerta para os que defendem o uso de energia atômica. “Mesmo deixando de lado a questão da segurança, que obviamente agora está sobre a mesa devido ao que ocorre no Japão, e se a busca é de uma solução para a mudança climática, a energia atômica leva muito tempo para ser construída, os reatores demoram anos para entrar em funcionamento, e são muito caros”, afirmou.

“A maior parte do custo recai nos contribuintes norte-americanos. Então, para que seguir esse caminho?”, acrescentou. Além disso, “a confiabilidade da energia nuclear é praticamente nula em uma emergência quando existe esta confluência de desastres naturais”, ressaltou Linda.

No Japão, onde calcula-se que mais de dez mil pessoas desapareceram no tsunami da semana passada, a população teme o que se considera o maior desastre nuclear desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). À luz disto, a Beyond Nuclear e outras organizações pedem uma completa e gradual eliminação das usinas atômicas e maior investimento em energias verdes. “Temos agora a tecnologia para usar energias 100% renováveis e efetivas”, disse Harvey Wasserman, editor do site Nukefree.org.

“Mas as empresas têm grandes investimentos que seriam ameaçados em caso de renúncia ao carvão, petróleo, gás e energia nuclear”, disse Harvey à IPS. “Também temem a instalação de um sistema de energia que possa ser controlado pela comunidade, e não monopolizado pelo mundo corporativo. Assim, em última análise, é uma luta entre ricos e pobres, corporações e comunidades, entre tecnologia da morte e a que busca a sobrevivência”, acrescentou. Outros especialistas apontaram a perigosa ligação entre energia atômica e a proliferação de armas nucleares.

“O já destacado renascer nuclear definitivamente acabou”, disse John Burroughs, diretor-executivo do Comitê de Advogados sobre Políticas Nucleares e diretor do escritório norte-americano da Associação Internacional de Advogados contra as Armas Atômicas. “Cada reator produz combustível contendo plutônio, que pode ser usado em armas. A ligação entre arsenais e energia atômica deve ser parte de uma revisão do setor”, disse à IPS.

“Sem dúvidas, o desastre no Japão gerará novas demandas para que a indústria nuclear e seus reguladores sejam mais transparentes. As mesmas demandas devem se estender aos responsáveis pelas armas atômicas nos nove países que as possuem”, afirmou John. As cinco potências “declaradas” são China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, enquanto as quatro “não declaradas” são Coreia do Norte, Israel, Índia e Paquistão.

*Com a colaboração de Kanya D’Almeida.

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=88009&edt=1
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